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  • Foto do escritorMaria Angélica de Moura Miranda

O deboche da lenda

Atualizado: 1 de out. de 2021


Livros do acervo da colunista. (Foto: Maria Angélica/Divulgação)

Por Maria Angélica*


Antigamente as lendas eram tratadas com deboche, os intelectuais nem davam bola, e a população em geral se divertia pois cada vez que era contada, aumentavam um pouco, fazendo com que ela se tornasse mais fantasiosa ou trágica.


Com o tempo essa modalidade de literatura passou a despertar respeito e muitos estudiosos editaram livros sobre o assunto.


O ex-deputado Manoel Hipólyto do Rego fez um trabalho sobre esse assunto que foi publicado pela sua esposa Iraydes Lobo Viana do Rego em 1951: “A Lenda no Litoral Paulista”.


No livro “Caiçaras de Juqueí” de 1961, a autora Beni Daud deixa registrada lendas da Costa Sul de São Sebastião, SP.


Antônio Paulino de Almeida publicou em 1959 “Memória Histórica sobre São Sebastião” onde transcreve lendas e documentos que dão respaldo histórico para muitas lendas que já vinham sendo contadas desde a década de 20, do século passado.


Já em 1981 foi publicado pelo MEC-SENAC-FUNART, através do Instituto Nacional do Folclore, o trabalho pesquisado na década de 40 pelo professor Rossini Tavares Lima: “O Folclore do Litoral Norte de São Paulo”.


Com a pesquisa que realizo através do “Encontro Regional de Autores”, conheci a publicação “Ubatuba - Lendas e outras histórias” publicado em 1983, do autor Washington de Oliveira (seu Filhinho) que segundo ele: ”traz à luz fatos históricos e preciosos até então pouco ou nada conhecidos da antiga Vila de Iperoig.”


Na Prefeitura de São Sebastião, SP, década de 90, foi feito um levantamento sobre as lendas que foi publicado pelas especialistas da Secretaria da Educação chamado “Mitos e Lendas de São Sebastião”, que continua até hoje na grade escolar do município.


Em Caraguatatuba Maurício Poeta Netto, nos presenteia com as lendas do município contadas em versos, em pequenas publicações, através de patrocinadores ou com apoio da FUNDACC.


Em Ilhabela o professor e historiador Adriano Leite, não só levantou as lendas da cidade, como também encenou com grupos de jovens alunos, recontando e gravando todas as histórias no palavreado caiçara. Um trabalho maravilhoso que merece todo o nosso respeito.


Em 2016, Dona Neide Palumbo, Edvaldo Nascimento, Henrique Cardim e eu fomos gravados para um TCC de Rádio e TV, da UNIVAP. Esse documentário está disponível para estudantes e público em geral conhecer um pouco mais a importância das lendas do Litoral Norte de São Paulo.


Já em 2017 publiquei o livro “Cidadania” fazendo uma alusão às mais conhecidas lendas do nosso município: A lenda da Defesa, a lenda do Santo, a lenda da Toca do Bicho, a lenda do Pontal, a lenda da Fazenda do Outeiro. Costumo trabalhar este livro em eventos de São Sebastião e Ilhabela.


A partir de 2019, estou publicando uma série que serão 4 livros com 6 lendas em cada um, onde retrato histórias de todas as cidades do Litoral Norte: Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela.


Nesse trabalho deixo registrado que as lendas indígenas exaltam a mata, foram criadas como uma oração, agradecendo pelo alimento e por toda beleza que os rodeava. Já as lendas que foram criadas pelos colonizadores possuem um certo controle social, foram criadas para que os escravos não fugissem para a mata, pois os índios não ficaram na fazenda, se sentiam presos e voltavam para a mata.


Temos uma lenda que deixa isso bem claro, é a que fala que: “Quem come manga e toma leite, pode morrer”. Isso foi criado para que os negros não bebessem leite, pois as fazendas tinham muitas mangueiras e essa era uma das furtas preferidas na época. O leite então ficava só para a família dos fazendeiros.


Nesses novos tempos de fake news, isso fica ainda mais claro, pois esse tem sido um método para levar a população a acreditar em uma coisa que não é verdade.

Mas sobre as lendas, posso afirmar, pelo que já estudei sobre o assunto, que ainda hoje quando uma lenda é contada pode aparecer alguém para mudar o sentido da lenda, causando confusão e desrespeito nessa modalidade de literatura, tenham muito cuidado!


Nota do Editor: Maria Angélica de Moura Miranda é jornalista, foi Diretora do Jornal "O CANAL" de 1986 à 1996, quando também fazia reportagens para jornais do Vale do Paraíba. Escritora e pesquisadora de literatura do Litoral Norte, realiza desde 1993 o "Encontro Regional de Autores".


*O artigo publicado nesta coluna é de total e exclusiva

responsabilidade do autor citado acima.





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